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Artigo

A lógica do vício

16:31 - 25 jul 2019 | Por Marcelo Harger*

Recentemente ouvi uma história horrível. Um advogado renomado no nordeste do país recebeu um ultimato de seu médico: deveria parar de fumar e ingerir bebidas alcoólicas porque complicações vasculares poderiam fazer com que tivesse as pernas amputadas.

O paciente que recebeu a terrível notícia é pessoa extremamente inteligente e esclarecida. Faço essa observação, porque a conduta que se espera de alguém com essas características, ao receber notícia tão drástica, é parar imediatamente de fumar e beber.

Não foi isso que fez o cidadão em questão. Passou a calcular o tempo que utilizava as pernas e fez uma conta estarrecedora. Passava oito horas dormindo, nove horas sentado trabalhando no escritório, uma hora sentado almoçando, uma hora sentado jantando, duas horas assistindo televisão, sentado, uma hora no trajeto ida e volta para o escritório também sentado no carro.

Observou também que as duas horas restantes eram gastas alternadamente entre momentos sentado e em pé. Chegou a conclusão de que preferia continuar a beber e fumar porque poderia prescindir dos poucos minutos diários nos quais utilizava as pernas. Criou uma justificativa lógica para justificar o fato de que brevemente teria as pernas amputadas e passaria o restante da vida em cadeira de rodas.

O interessante é que jamais reconheceu que o vício era mais forte que ele. Sempre afirmou que era uma escolha consciente, e que poderia largar o fumo e o álcool no momento em que quisesse. Não o fazia porque preferia o prazer que eles lhe proporcionavam à parte não importante de seu corpo representada pelas pernas.

Vício é algo terrível para todos, mas é pior quando ocorre nas pessoas inteligentes. Racionalizam a própria dependência para justificar algo que diante dos outros é bizarro. É a lógica do vício, que somente consegue ser superada a partir do momento em que o viciado consegue perceber que tem um problema.

Antes dessa percepção qualquer esforço dos familiares e amigos é vão. Resta apenas rezar para que adquiram a consciência antes de perderem as próprias pernas.

*Marcelo Harger

Advogado em Joinville, graduado em Direito pela Universidade Federal do Paraná, pós-graduado em processo civil pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Mestre e Doutor em Direito do Estado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas, ex conselheiro do Conselho Estadual de Contribuintes de Santa Catarina, ex Coordenador do Curso de Pós-Graduação em Direito Administrativo e Gestão Pública do Complexo de Ensino Superior de Santa Catarina – CESUSC, foi professor em diversos cursos de graduação, pós-graduação e extensão universitária, membro do Instituto de Direito Administrativo de Santa Catarina – IDASC, autor de diversos artigos científicos publicados nas principais revistas jurídicas do país, autor do livro “Os consórcios públicos na lei n° 11.107/05”, do livro “Princípios Constitucionais do Processo Administrativo”, do livro “Improbidade Administrativa: Comentários à lei n⁰ 8429/92”, coordenador do livro “Curso de Direito Administrativo”, coautor dos livros: “ICMS/SC – Regulamento anotado”, “Direito Tributário Constitucional”, “Princípios Constitucionais e Direitos Fundamentais”, “O direito ambiental e os desafios da contemporaneidade”, “Processo Administrativo Temas Polêmicos da Lei 9.784/99” e “Filosofia do Direito contemporâneo”.