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Acidente

Sul-mato-grossense conta como conhecimento profissional ajudou na hora do acidente que matou 16 no Peru

O técnico de segurança do trabalho estava ônibus que tombou no Peru

08:43 - 08 jan 2020 | Por MidiaMax

O técnico de Segurança do Trabalho Danilo Pereira de Oliveira Alencar, de 30 anos, foi uma das vítimas do acidente ocorrido na noite desta segunda-feira (6) que matou 16 pessoas no Peru. Ele estava acompanhado da namorada, a bióloga Mariana Pires Veiga Martins, 28 anos, também sul-mato-grossense. O jovem relatou com exclusividade ao Jornal Midiamax como os conhecimentos profissionais ajudaram no momento de tensão no acidente.

Morador de São Gabriel do Oeste, a cerca de 130 km de Campo Grande, Danilo contou que ele e a namorada embarcaram no ônibus em Ica por volta das 19h40 do domingo (5) e sentiam sentido Arequipa. De lá, seguiriam para La Paz, com o objetivo de encontrar uma amiga, também sul-mato-grossense.

“Essa amiga saiu de São Gabriel conosco. Mas, em Cuzco, ela se separou e seguiu para La Paz e nós estávamos indo encontrar com ela”, disse à reportagem. O servidor público contou que por volta da meia noite desta segunda-feira, pouco antes do acidente, ele e a namorada decidiram dormir e 20 minutos depois o acidente aconteceu.

“Era mais ou menos meia noite quando eu desliguei o celular e fomos dormir para descansar. Uns 20 minutos depois, acordei com a freada brusca e o ônibus tombando para o lado esquerdo. Eu estava na poltrona 30, pro lado do corredor, e a Mariana na 29, pro lado da janela. Quando olhei ela estava com o rosto virado para os escombros, então sai do ônibus para ver de fora como estava a situação. Só depois que sai de dentro do veículo é que tive dimensão do que ocorreu”, relatou.

Pessoa certa na hora certa

A tragédia que deixou pelo menos 14 mortos foi próximo à entrada da cidade Rio Paca, um trecho em que o veículo deveria estar em baixa velocidade. Porém, a informação concedida após o acidente seria de que o ônibus estava rodando a 106 Km/h no momento em que saiu da pista.

Danilo usou os conhecimentos profissionais para salvar a namorada e também para ajudar outras pessoas. Calma, disciplina e perícia foram fundamentais. “Eu voltei para tentar puxar ela. Por ter conhecimento sobre resgate, tive calma suficiente para fazer o rolamento e tirá-la debaixo dos escombros e ai vi os danos que ela tinha sofrido, mas pude perceber que ela conseguia respirar”, explicou.

Ao Jornal Midiamax, o técnico de segurança do trabalho contou que antes de fazer o rolamento da namorada, ele voltou ao ônibus tombado e conseguiu pegar uns cobertores e chamar ajuda de pessoas que passavam pelo local. “Consegui ajuda de alguns habitantes da região que me ajudaram a fazer o transbordo da Mariana até a pista e uma caminhonete da polícia peruana estava encostando. Rapidamente colocaram ela no carro e nesse momento eu olhei para trás e vi a dimensão do acidente, aí fiquei assustado”, desabafou.

O acidente

Segundo Danilo, a namorada foi levada até ao posto de saúde do vilarejo e chegando lá ele se apresentou a uma enfermeira de prontidão. “Dava para ver que ela estava com roupa de [ficar em] casa. Eu me identifiquei e comecei a ajudá-la nos procedimentos”, destacou. Ele lembra que, ainda no ônibus, conseguiu ajudar a pessoa que estava na poltrona da frente a se soltar. No hospital, ajudou a estancar a hemorragia de um funcionário da empresa de ônibus.

“Quando eu paro e penso no que consegui fazer, eu fico chocado. Os conhecimentos de primeiros socorros ajudaram, crianças deveriam aprender primeiros socorros na escola, deveriam aprender a manter a calma em momentos de acidente, porque isso ajuda na hora do socorro”, disse.

Conforme o relato do rapaz, a namorada estava desorientada, mas acordada. “Foram 40 minutos para a ambulância chegar e então levaram a Mariana primeiro para Nazca. Ela estava desorientada, mas estava acordada. Foi mais ou menos 1h30 para transferência até o hospital e, quando chegamos ela foi levada diretamente para o setor de emergência onde foram feitos os atendimentos”.

Nesse momento, quando constatou que a namorada teria toda a assistência profissional, Danilo contou que acabou perdendo as forças e desmaiando. “Acordei um tempo depois, já tomando soro, e ela tinha sido transferida para Ica”.

De Ica, por ordem do Ministério da Saúde do Peru, a bióloga foi foi pra Lima, onde passou por cirurgia na tarde desta terça-feira (7) e já está com quadro estável. “A mãe dela já está em Lima, eu estou indo para lá e espero conseguir vê-la ainda hoje. Mas ela já saiu da cirurgia e está se recuperando do anestésico e o quadro é estável”, disse.

Mais do que nascer de novo

Sobre a experiência, Danilo destaca que não sabe até que ponto o psicológico vai aguentar a viagem de ônibus até Lima, mas conta que mais do que o clichê do nascer de novo, a experiência trouxe um novo olhar sobre a vida.

“Eu optei em ir de ônibus até Lima, para encontrar a Mariana, a empresa está me dando todo suporte, mas a gente para e refleti e percebe que mais do que nascer de novo, o acidente nos permite agora dar valor para o simples”,contou.

Danilo e Mariana horas antes do acidente, numa das paradas do mochilão que terminou em tragédia | Foto: Arquivo Pessoal
“Agora consigo ver que estou realmente preparado para prestar auxílio em caso de algum acidente, eu sempre falei para a Mariana manter a calma, e manter a calma nos ajudou e ajudou quem estava prestando o socorro”, completou Danilo.

Ainda na ambulância, ele relatou que a namorada passou por momentos de ficar nervosa, mas ele conversou com ela para se manter a calma. “Eu fico impressionado quando começo a me lembrar das coisas que acabei fazendo durante esse acidente. Se você o olhar a foto do acidente e olhar para mim você vê que realmente eu sai ileso, foram só algumas escoriações e é uma sensação inexplicável, outras 20 pessoas [número inexato] morreram”, disse emocionado.

Ele reafirmou à reportagem estar bem e feliz, e não estar preocupado ainda em como voltarão para Mato Grosso do Sul – a prioridade agora é a recuperação da namorada.

Danilo e Mariana horas antes do acidente, numa das paradas do mochilão que terminou em tragédia | Foto: Arquivo Pessoal

Suporte necessário

Danilo relatou ainda a importância de todo o suporte recebido nesses momentos por parte não só da empresa responsável pelo transporte, mas da Embaixada Brasileira no Peru, do Ministério da Saúde e do órgão de turismo do governo daquele país.

“Estamos recebendo todo o suporte. Estou viajando agora sem custo nenhum até Lima. Uma equipe de turismo do governo nos ajudou comprando roupas e sandálias enquanto estávamos no hospital, a embaixada brasileira tem feito a ponte das notícias comigo e com as nossas famílias. E eu realmente fiquei surpreso com todo esse suporte que está fazendo a diferença nesse momento”, concluiu.